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 ====Resiliência no Monitoramento de Longo Prazo==== ====Resiliência no Monitoramento de Longo Prazo====
-====Bruno Lenhaverde Sandy====+===Bruno Lenhaverde Sandy===
  
 O termo resiliência foi introduzido na literatura em 1973 por um ecólogo teórico C. S. Holling no artigo “Resilience and stability of ecological systems” como um meio de entender a dinâmica não-linear observada nos ecossistemas. Desde esta época, o conceito estava relacionado com o termo  “estabilidade” sendo transportado das áreas de Matemática e Física para entender sobre a diversidade biológica relacionada com as funções ecológicas (Peterson et. al., 1998). Ele foi definido na literatura de duas formas distintas (resiliência engenharia e resiliência ecológica), cada uma refletindo diferentes aspectos de estabilidade. Holling enfatizou estes diferentes aspectos de estabilidade para chamar atenção para a distinção entre eficiência e persistência; constância e alteração; predição e não-predição. E definiu como a capacidade de um sistema retornar ao seu estado de equilíbrio após um distúrbio. O termo resiliência foi introduzido na literatura em 1973 por um ecólogo teórico C. S. Holling no artigo “Resilience and stability of ecological systems” como um meio de entender a dinâmica não-linear observada nos ecossistemas. Desde esta época, o conceito estava relacionado com o termo  “estabilidade” sendo transportado das áreas de Matemática e Física para entender sobre a diversidade biológica relacionada com as funções ecológicas (Peterson et. al., 1998). Ele foi definido na literatura de duas formas distintas (resiliência engenharia e resiliência ecológica), cada uma refletindo diferentes aspectos de estabilidade. Holling enfatizou estes diferentes aspectos de estabilidade para chamar atenção para a distinção entre eficiência e persistência; constância e alteração; predição e não-predição. E definiu como a capacidade de um sistema retornar ao seu estado de equilíbrio após um distúrbio.
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-====Referências Bibliográficas====+===Referências Bibliográficas===
  
  
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 Wilkie DS, Carpenter JF (1999) Bushmeat hunting in the Congo Basin: an assessment of impacts and options for mitigation. Biodiversity and Conservation 8: 927-955. Wilkie DS, Carpenter JF (1999) Bushmeat hunting in the Congo Basin: an assessment of impacts and options for mitigation. Biodiversity and Conservation 8: 927-955.
  
 +==== Síntese conceitual da ecologia de comunidades e as invasões biológicas ====
 +=== Fernando Silvério Ribeiro ===
 +A história da ecologia de comunidades não tem um início muito bem definido, mas foi a partir da década de 1960 que a disciplina iniciou um claro desenvolvimento teórico (Vellend, 2010). Ao longo dos anos, inúmeros trabalhos identificaram novos processos importantes na estruturação das comunidades ecológicas, muitas vezes sem a preocupação explícita de integrá-los aos já conhecidos. Apenas em 2010, com o artigo publicado por Vellend, a disciplina parece ter encontrado uma síntese teórica capaz de abarcar todo o conhecimento estabelecido até então. O destaque do trabalho foi estabelecer que apenas quatro processos básicos, individualmente ou em diferentes combinações, são capazes de gerar todos os padrões encontrados. Os quatro processos são: seleção, deriva, especiação e dispersão. O artigo define seleção como diferenças determinísticas de fitness entre indivíduos de diferentes espécies; deriva como mudanças aleatórias na abundância relativa de espécies; especiação como o surgimento de novas espécies; e dispersão como o movimento de organismos pelo espaço.
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 +Paralelamente ao desenvolvimento da ecologia de comunidades, surgia em 1958, com o trabalho pioneiro de Elton, uma nova área de estudos, as invasões biológicas. A nova disciplina seguiu uma linha própria, com terminologia e conceitos únicos. Assim como na ecologia de comunidades, diversos estudos em sistemas específicos geraram resultados aparentemente contraditórios, levantando a questão de se seria possível alguma generalização teórica. Milbau et al. (2009) afirmaram que provavelmente os cientistas estavam estudando diferentes peças de um mesmo quebra-cabeça e salientam a importância da integração de resultados. Alguns trabalhos tentam abordar essa questão (revisado por Gurevitch et al., 2011), sugerindo diferentes quadros conceituais, potencialmente integradores, para lidar com as invasões biológicas. Um problema apontado pelos autores da revisão é o fato desses quadros conceituais não interagirem explicitamente com outras áreas da ecologia, mantendo, por exemplo, terminologia própria, mesmo quando o significado teórico pode ser melhor compreendido através de outros conceitos já bem estabelecidos na ecologia.
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 +Apesar de algumas especificidades, como a obrigatoriedade da existência de espécies não nativas, as questões pertinentes às invasões biológicas tem relação com a riqueza, composição e abundância de espécies na comunidade, ou seja, suas perguntas assemelham-se muito às da ecologia de comunidades. Dessa forma, penso que uma maior aproximação entre invasões biológicas e ecologia de comunidades pode ajudar a esclarecer alguns dos conceitos largamente utilizados em estudos de invasões. Abaixo, discutirei como meu projeto de pesquisa de mestrado, estruturado parcialmente com base na teoria de invasões biológicas, pode ser também entendido através dos conceitos de ecologia de comunidades.
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 +Em minha pesquisa, procuro entender os determinantes e os impactos da invasão de cachorros domésticos (Canis familiaris) em remanescentes florestais de paisagens fragmentadas na Mata Atlântica. Com relação aos determinantes, irei analisar os dois principais fatores relacionados ao sucesso de invasões: pressão de propágulos e distúrbios. Pressão de propágulos é uma medida do número e da distribuição espacial e temporal dos indivíduos da espécie exótica em uma região. Logo, um componente desse conceito é a taxa de fecundidade da espécie, que por sua vez contribui para o fitness e, portanto, faz parte do conceito de seleção de Vellend. Normalmente, a seleção também deveria influir na distribuição espacial e temporal da espécie, porém o cachorro é fortemente subsidiado pelo homem e, portanto, sua distribuição deve ser mais definida pela dispersão mediada por ação humana. Assim, conclui-se que pressão de propágulos nada mais é do que uma combinação de seleção e dispersão e, para entendê-la de fato, preciso analisar mais profundamente esses dois aspectos. Isso gera a necessidade, por exemplo, de investigar os motivos pelos quais as pessoas criam cachorros para compreender os padrões de dispersão dos mesmos pelas áreas rurais. Outro aspecto interessante a ser abordado é a taxa com que os proprietários de cachorros castram os seus animais.
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 +Por outro lado, distúrbios estão relacionados à “invasibilidade” (invasibility) do ambiente e podem alterar, por exemplo, os tipos e quantidades de recursos disponíveis. Nesse novo ambiente, o regime de seleção estabelecido ao longo da história evolutiva é alterado. Interações entre espécies, como competição e predação, podem, deterministicamente, favorecer a espécie exótica, resultando em sucesso da invasão. No caso dos cachorros, o distúrbio que irei abordar é a perda de habitat nativo. Descendente de um ancestral com preferência por áreas abertas, o cachorro deve beneficiar-se da degradação de florestas e se locomover mais facilmente pelas paisagens. Novamente fica claro o papel do conceito de seleção como determinante da probabilidade de invasão do cachorro.
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 +Apesar da simplicidade dos exemplos apresentados, não acho que outros conceitos ou hipóteses relativos às invasões biológicas não possam ser tratados da mesma maneira. Hipóteses como “escape de inimigos” (Keane e Crawley, 2002), “nichos vazios” (Hierro et al., 2005) e “heterogeneidade ambiental” (Melbourne et al., 2007) entre outras, estão sempre relacionadas às interações determinísticas (e, portanto, seleção) entre a espécie exótica, nativas e ambiente e/ou a demografia da espécie exótica (seleção e dispersão). Além disso, resultados contraditórios ou inesperados não podem descartar as flutuações aleatórias na abundância de espécies (deriva) como uma possível explicação.
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 +== Referências bibliográficas ==
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 +Elton, C.S. 1958. The ecology of invasions by animals and plants. Methuen, London.
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 +Gurevitch, J., Fox, G.A., Wardle, G.M., Inderjit, Taub, D. 2011. Emergent insights from the synthesis of conceptual frameworks for biological invasions. Ecology Letters 14: 407-418
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 +Hierro, J.L., Maron, J.L., Callaway, R.M. 2005. A biogeographical approach to plant invasions: the importance of studying exotics in their introduced and native range. Journal of Ecology 93: 5-15
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 +Keane, R.M., Crawley, M.J. 2002. Exotic plant invasions and the enemy release hypothesis. Trends in Ecology and Evolution 17: 164–170
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 +Melbourne, B.A., Cornell, H.V., Davies, K.F., Dugaw, C.J., Elmendorf, S., Freestone, A.L., Hall, R.J., Harrison, S., Hastings, A., Holland, M., Holyoak, M., Lambrinos, J., Moore, K.,  Yokomizo, H. 2007. Invasion in a heterogeneous world: resistance, coexistence or hostile takeover? Ecology Letters 10: 77–94.
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 +Milbau, A., Stout, J.C., Graae, B.J., Nijs, I. 2009. A hierarchical framework for integrating invasibility experiments incorporating different factors and spatial scales. Biological Invasions 11: 941-950
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 +Vellend, M. 2010. Conceptual synthesis in community ecology. The Quaterly Review of Biology 85: 183-206
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 +==== A Diversidade em Sistemas Sócio-Ecológicos ====
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 +=== Carlos Frederico Alves de Vasconcelos Neto ===
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 +Sistemas sócio-ecológicos (SSE) são criados a partir da inter-relação entre povos e os recursos naturais que os rodeia, ou seja, a interação entre o sistema social e ecológico. Duas teorias principais servem de base para facilitar a compreensão dos sistemas sócio-ecológicos, são elas, “teoria geral dos sistemas” e “teoria dos sistemas adaptativos complexos” (Berkes et al., 2003). Em suma, enquanto a teoria dos sistemas estuda entidades estáticas conectadas por relações lineares e que estão em constante equilíbrio, a teoria da complexidade postula relações não lineares e em constante mudança, comportamentos complexos que evoluem das relações locais entre os componentes do sistema ao longo do tempo (Manson, 2001). Apesar destas diferenças, essas duas teorias são complementares.
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 +A ecologia de comunidades tem como um dos principais objetivos explicar as diferenças na diversidade entre comunidades. No entanto, vários estudos não consideram o homem como agente criador/modificador de diversidade. O uso de abordagens integrativas são cada vez mais necessárias para uma real compreensão do papel dos seres humanos na natureza. Nesta perspectiva, a teoria dos sistemas adaptativos complexos leva em consideração aspectos da adaptação e variabilidade para entender o funcionamento e a dinâmica dos sistemas em mudança, ou seja, como uma organização em escala superior surge, se mantêm e é reorganizada por processos com escalas inferiores (Levin et al., 1998).
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 +A teoria geral dos sistemas foca-se na hierarquia e interdependência entre os componentes do sistema, enquanto a teoria da complexidade propõe conceitos como não-linearidade, variabilidade, hierarquia, escala e multi-equilíbrio (Stacey, 1996). Estas teorias e conceitos contrastam a ideia estática de capacidade suporte e clímax apontada por Scoones (1999), destacando formas de manejo com base no ciclo de renovação adaptativa proposto por Holling (2001), onde as fases de exploração, conservação, liberação e reorganização determinam a dinâmica e resposta dos sistemas frente às situações de distúrbios ecológicos e sociais. Ou seja, os sistemas ecológicos podem apresentar diferentes níveis resiliência, na medida que se tornam mais adaptáveis as modificações humanas (Walker et al., 2004).
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 +Alguns autores (Anderson, 2010; Casas et al., 2007; Campbell et al., 2006) argumentam que o manejo realizado pelos povos que habitaram a Mesoamérica são os responsáveis pela formação de verdadeiras florestas antrópicas - consórcio de espécies domesticadas e de importância econômica com espécies selvagens. Onde observaram que ao longo dos anos de manejo as comunidades de fauna e flora apresentaram diversidade de espécies superior à habitats naturais, devido a maior produtividade destas áreas. Com base neste pressuposto, meu projeto tem como objetivo principal compreender como áreas com diferentes graus de antropização, mediam e interferem a distribuição e abundância da de mamíferos de médio e grande porte.
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 +Para avaliar a resiliência da área é preciso entender seus mecanismos e dinâmicas internas, para isso é necessário assumirmos como hipótese que estes sistemas sócio-ecológicos se comportam como sistemas complexos. E podem ser caracterizados como sendo resultado de um processo cotidiano de adaptação entre um dado povo e o seu ecossistema, onde os processos sociais e ecológicos são dependentes dos níveis de escala e organização considerados. (Altieri, 2002; Gomes & Borba, 2003; Walker et al., 2004).
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 +== Referências Bibliográficas ==
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 +Altieri, M.A. 2002. Agroecology: the science of natural resource management for poor farmers in marginal environments. Agriculture, Ecosystems and Environment, 93(1-3): 1-24;
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 +Anderson, E.N. 2010. Managing Maya Landscapes: Quintana Roo, Mexico. In: Landscape Ethnoecology: Concepts of Biotic and Physical Space, (Orgs.) Johnson, L.M. & Hunn, E.S.. Berghahn Books. 332pp.
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 +Berkes, F.; Colding, J.; Folke, C. 2003. Navigating social-ecological systems: building resilience for complexity and chance. Cambridge: Cambridge University Press;
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 +Campbell, D.G.; Ford, A.; Lowell, K.; Walker, J.; Lake, J.K.; Ocampo-Raeder, C.; Townesmith, A.; Balick, M. 2006. The Feral Forests of the Eastern Peten. In: Time and Complexity in the Neotropical Lowlands, (Orgs.) Erickson, C. & Balée, W. Columbia University. 21–55pp;
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 +Casas, A.; Otero-Arnaiz, A.; Pérez-Negrón, E.; Valiente-Banuet, A. 2007. In situ management and domestication of plants in Mesoamerica. Annals of Botany, 100(5): 1101–1015p;
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 +Gomes, J.C.C.; Borba, M. 2003. Limites e possibilidades da agroecologia como base sociedades sustentáveis. Ciencia & Ambiente, 27: 5-14;
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 +Holling, C.S. 2001. Understanding the complexity of economic, ecological, and social systems. Ecosystems, 4: 390-405;
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 +Levin, S.A.; Barret, S.; Aniyar, S. 1998. Resilience in natural and socioeconomic systems. Environment and Development Economics, 3(2): 222-235;
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 +Scoones, I. 1999. New ecology and the social sciences: what prospects for a fruitful engagement? Annual Review of Anthropology, 28(1): 479-507;
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 +Stacey, R. 1996. Complexity and creativity in organizations. San Francisco: Berrett Koehler;
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 +Walker, B.; Holling, C.S.; Carpenter, S.R.; Kinzig, A. 2004. Resilience, Adaptability and Transformability in Social-Ecological Systems. Ecology and Society 9(2): 1-9;
ensaios/2014.1421714922.txt.gz · Última modificação: 2015/01/20 00:48 por paula.bio08
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