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ensaios:2014 [2015/01/19 14:04] – [Estados alternativos no Cerrado e o uso de fogo na manutenção da resiliência] paula.giroldo | ensaios:2014 [2015/01/20 19:33] (atual) – [Referências Bibliográficas] paulo | ||
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Transições críticas e mudanças bruscas foram constatadas em sistemas biológicos, | Transições críticas e mudanças bruscas foram constatadas em sistemas biológicos, | ||
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Ao contrário de sistemas que apresentam transições graduais, sistemas com estados múltiplos ou alternativos apresentam transições “catastróficas” entre estados estáveis de um sistema. A transição catastrófica entre estados alternativos ocorre a partir de um limiar crítico que promove o colapso do equilíbrio estável. Note, entretanto, que as condições responsáveis pelas transições entre estados alternativos (// | Ao contrário de sistemas que apresentam transições graduais, sistemas com estados múltiplos ou alternativos apresentam transições “catastróficas” entre estados estáveis de um sistema. A transição catastrófica entre estados alternativos ocorre a partir de um limiar crítico que promove o colapso do equilíbrio estável. Note, entretanto, que as condições responsáveis pelas transições entre estados alternativos (// | ||
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Quando este estudo é projetado no modelo teórico, portanto, florestas e savanas são estados alternativos de um mesmo sistema e um determinado limiar de precipitação promove a transição catastrófica de cobertura florestal. Neste caso uma ação de manejo – como garantir a chegada de água no sistema (simulando a precipitação) – demonstra a histerese, já que regar uma formação savânica não garante que ela se transforme em uma formação florestal. | Quando este estudo é projetado no modelo teórico, portanto, florestas e savanas são estados alternativos de um mesmo sistema e um determinado limiar de precipitação promove a transição catastrófica de cobertura florestal. Neste caso uma ação de manejo – como garantir a chegada de água no sistema (simulando a precipitação) – demonstra a histerese, já que regar uma formação savânica não garante que ela se transforme em uma formação florestal. | ||
- | Se por um lado podemos reconhecer estados alternativos em uma escala continental ou global, também podemos reconhecer a existência de estados alternativos dentro de grandes formações vegetais. No caso de fisionomias savânicas, por exemplo, outros fatores como o fogo e a herbivoria determinam suas fisionomias (Dublin et al., 1990; Van Langevelde et al., 2003; Hoffmann et al. 2012; Pausas, 2015). Evidências demonstram que fisionomias de Cerrado são estados alternativos de um mesmo sistema e que os limiares estão relacionados a características funcionais e filogenéticas associadas com diferentes regimes de fogo ((O regime de fogo é definido por componentes temporais, espaciais e de magnitude.)) (Dantas et al. 2013). | + | Se por um lado podemos reconhecer estados alternativos em uma escala continental ou global, também podemos reconhecer a existência de estados alternativos dentro de grandes formações vegetais. No caso de fisionomias savânicas, por exemplo, outros fatores como o fogo e a herbivoria determinam suas fisionomias (Dublin et al., 1990; Van Langevelde et al., 2003; Hoffmann et al. 2012; Pausas, 2015). Evidências demonstram que fisionomias de Cerrado são estados alternativos de um mesmo sistema e que os limiares estão relacionados a características funcionais e filogenéticas associadas com diferentes regimes de fogo ((O regime de fogo é definido por componentes temporais, espaciais e de magnitude.)) (Dantas et al. 2013). É fundamental, |
- | O fogo é um fator ecológico essencial nas savanas e promotor de sua evolução (Bond et al., 2005). No Cerrado brasileiro a incidência de incêndios remonta a milhares de anos, como é revelado por amostras de carvão datadas entre 27 e 41 mil anos atrás (Vicentini, 1993), ou mesmo milhões de anos, como sugerem evidências biológicas (Simon et al., 2009). Inúmeras estratégias adaptativas ao fogo frequente são reconhecidas na vegetação nativa do Cerrado (Coutinho 1990; Guedes 1993; Medeiros 2002) e a maior parte de suas fisionomias | + | O fogo, em especial, |
Devido à crescente descaracterização dos regimes naturais de incêndio nos ecossistemas que dependem dele (Hardesty et al., 2005; Pivello, 2011), organizações internacionais têm chamado atenção para a importância de queimadas na conservação desses sistemas e para o estabelecimento de manejo com fogo adequado (Myers, 2006). Apesar de pouco usual no Brasil, o manejo com fogo é utilizado mundo afora e é apontado como uma alternativa no controle de plantas e patógenos indesejáveis (Young et al., 1999; Zimdahl, 1999; Stolle et al., 2003; DiTomaso et al., 2006), na manutenção de comunidades vegetais | Devido à crescente descaracterização dos regimes naturais de incêndio nos ecossistemas que dependem dele (Hardesty et al., 2005; Pivello, 2011), organizações internacionais têm chamado atenção para a importância de queimadas na conservação desses sistemas e para o estabelecimento de manejo com fogo adequado (Myers, 2006). Apesar de pouco usual no Brasil, o manejo com fogo é utilizado mundo afora e é apontado como uma alternativa no controle de plantas e patógenos indesejáveis (Young et al., 1999; Zimdahl, 1999; Stolle et al., 2003; DiTomaso et al., 2006), na manutenção de comunidades vegetais | ||
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====Resiliência no Monitoramento de Longo Prazo==== | ====Resiliência no Monitoramento de Longo Prazo==== | ||
- | ====Bruno Lenhaverde Sandy==== | + | ===Bruno Lenhaverde Sandy=== |
O termo resiliência foi introduzido na literatura em 1973 por um ecólogo teórico C. S. Holling no artigo “Resilience and stability of ecological systems” como um meio de entender a dinâmica não-linear observada nos ecossistemas. Desde esta época, o conceito estava relacionado com o termo “estabilidade” sendo transportado das áreas de Matemática e Física para entender sobre a diversidade biológica relacionada com as funções ecológicas (Peterson et. al., 1998). Ele foi definido na literatura de duas formas distintas (resiliência engenharia e resiliência ecológica), | O termo resiliência foi introduzido na literatura em 1973 por um ecólogo teórico C. S. Holling no artigo “Resilience and stability of ecological systems” como um meio de entender a dinâmica não-linear observada nos ecossistemas. Desde esta época, o conceito estava relacionado com o termo “estabilidade” sendo transportado das áreas de Matemática e Física para entender sobre a diversidade biológica relacionada com as funções ecológicas (Peterson et. al., 1998). Ele foi definido na literatura de duas formas distintas (resiliência engenharia e resiliência ecológica), | ||
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- | ====Referências Bibliográficas==== | + | ===Referências Bibliográficas=== |
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+ | ====Espaço e Território==== | ||
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+ | ===Gabriela de Lima Marin=== | ||
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+ | Dentro do panorama geral da ecologia de comunidades, | ||
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+ | As interações entre espécies e também a diversidade local de espécies foi inicialmente explicada no início do século XX, em Ecologia de Comunidades, | ||
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+ | A área da Ecologia que se propôs a estudar a influência do espaço é justamente a Ecologia Espacial e algumas de suas principais áreas de estudo são: estabilidade da comunidade, padrões de diversidade, | ||
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+ | Atualmente existem diversos tipos de modelos espacialmente explícitos (ex. equação de reação-difusão, | ||
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+ | Uma das possibilidades de aplicação dessa ferramenta foi introduzida por Skellam (1951). Ele fez a ligação entre a caminhada aleatória como descritor do movimento individual e a equação de difusão dos gases como descritor da dispersão no nível da espécie. Além disso, juntou a descrição da dispersão através da difusão com a dinâmica populacional (crescimento exponencial e logístico) para explicar a invasão biológica de um roedor na Europa. Ele fez isso através de um tipo especial de equação diferencial parcial, as equações de reação-difusão (Cantrell & Cosner, 2003). Para a ecologia, o termo da equação que representa a “reação” inclui os processos populacionais e as interações com outras espécies (ex. expressão do crescimento logístico) e o termo “difusão” descreve o movimento dos indivíduos ou população (geralmente corresponde ao processo de difusão passiva) (Tilman & Kareiva, 1997). Além do objetivo proposto por Skellam (1951), essa ferramenta foi utilizada para explicar outros processos ecológicos como dispersão, coexistência entre espécies e formação de padrões espaciais estáveis (Okubo, 1980; Azevedo, 2013). | ||
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+ | Outro tipo de EDP utilizada em estudos de ecologia espacial é a equação de advecção-difusão. Esse tipo de equação é utilizado principalmente na área de seleção de habitat (Grünbaum, 1998). Nesse caso, difusão descreve o movimento individual (a probabilidade de movimento do indivíduo) e o termo advecção introduz um viés na difusão (probabilidades diferente para cada direção/ | ||
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+ | Em meu mestrado, irei descrever como o tamanho e a sobreposição da área de vida variam em função de alguns fatores ambientais e individuais em conjunto para três espécies de roedores da Mata Atlântica. Portanto, meu mestrado é essencialmente descritivo e não é espacialmente explícito, pois eu não preciso saber onde estão os indivíduos. Tomando contato com as EDPs, que permitem incluir difusão em estudos populacionais e descrever movimentos individuais com a possibilidade de determinar direções preferenciais, | ||
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+ | Por mais que seja muito interessante que praticamente uma fórmula matemática seja capaz de gerar um padrão observado em campo, é importante lembrar que esse modelo depende de uma informação obtida provavelmente em estudos descritivos de população e comunidade: que lobos se alimentem de veados e que eles evitam regiões com marcação de outros lobos. Assim, estudos descritivos ainda são úteis (não adianta chegar a um padrão que não se sabe se é observado na natureza). O mais interessante seria ter os dois estudos (descritivo e mecanístico) relacionados (Werner, 1998). No meu caso, não só descrever territórios, | ||
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+ | Para os dois tipos de EDP já houveram avanços além dos descritos aqui. Alguns exemplos são (1) inclusão da possibilidade de territórios mudarem de lugar ao longo do tempo e não mais serem tratados como padrões estáveis (Bateman et al, 2014) como era apontado como falha desse tipo de abordagem (Tilman & Kareiva, 1997); (2) junção dos dois tipos de equação para descrever a persistência de populações em sistemas fragmentados (equações de reação-difusão-advecção) (Azevedo, 2013) ou (3) a persistência de populações/ | ||
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+ | ==Referências Bibliográficas: | ||
+ | Azevedo, F. S. D. (2013). Sistemas ecológicos modelados por equações de reação-difusão. | ||
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+ | Bateman, A. W., Lewis, M. A., Gall, G., Manser, M. B. & Clutton-Brock, | ||
+ | |||
+ | Begon, M., Townsend, C. R., J. L. (2005). Ecology: From Individuals to Ecosystems. 4th Edition Wiley-Blackwell, | ||
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+ | Cantrell, R. S., & Cosner, C. (2003). Spatial ecology via reaction-diffusion equations. Chichester, West Sussex, England: J. Wiley. | ||
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+ | Díaz-Sierra, | ||
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+ | Grünbaum, D. (1998). Using Spatially Explicit Models to Characterize Foraging Performance in Heterogeneous Landscapes. The American Naturalist, 151(2): 97-113. | ||
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+ | Holmes, E. E., Lewis, M. A., Banks J. E. & Veit, R. R. (1994). Partial Differential Equations in Ecology: Spatial Interactions and Population Dynamics. Ecology, 75(1): 17-29. | ||
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+ | Lewis, M. A. & Murray, J. D. (1993). Modelling territoriality and wolf–deer interactions. Nature, 366: 738–740. (doi: | ||
+ | |||
+ | Lewis, M. A., Hillen, T., & Lutscher, F. (2005). Spatial dynamics in ecology. | ||
+ | |||
+ | Lotka, A. J. (1925). Elements of Physical Biology. Williams and Wikins | ||
+ | |||
+ | MacArthur, R. H. (1958). Population ecology of some warblers of northeastern coniferous forests. Ecology, 39(4): 599-619. | ||
+ | |||
+ | Moorcroft , P. R., Lewis, M. A., Crabtree, | ||
+ | |||
+ | Okubo, A. (1980) Diffusion and Ecological Problems: Mathematical Models. (Biomathematics, | ||
+ | |||
+ | Potts, J. R., Lewis, M. A. (2014). How do Animals territories form and change? Lessons from 20 years of mechanistic modelling. J. R. Soc. Interface 11: 20140333 | ||
+ | |||
+ | Skellam, J. G. (1951). Random Dispersal in Theoretical Population. Biometrika, 38 (1-2): 196-218. doi: | ||
+ | |||
+ | Tilman, D. & . Kareiva, P. (1997). | ||
+ | |||
+ | Volterra, V. (1928). Variation and Fluctuation of the Number of Individuals in Animal Species Living Together. J. Cons. Cons. Int. Expor. Mer 3: 3-51 | ||
+ | |||
+ | Werner, E. E. (1998). Ecological experiments and a research program in community ecology. pp 3-27 Em: Resetarits B. & J. Bernardo. Experimental ecology: issues and perspectives. Oxford University Press. | ||
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+ | Zavala, M. A., Díaz-Sierra, | ||
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+ | ====Florestas Tropicais e áreas degradadas – Estados Alternativos de Equilíbrio Estável==== | ||
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+ | ===Bruno Sano=== | ||
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+ | As comunidades e ecossistemas podem ser considerados sistemas dinâmicos, | ||
+ | uma vez que seu estado pode ser entendido como o resultado do balanço de | ||
+ | inúmeros processos (Scheffer 2009). Quando estes sistemas possuem o | ||
+ | potencial de existir indefinidamente em estados contrastantes sobre as mesmas | ||
+ | condições ambientais, pode-se dizer que o sistema possui Estados Alternativos | ||
+ | de Equilíbrio Estável (Schöder et al., 2005). Os sistemas que se encontram em | ||
+ | um estado de equilíbrio estável apresentam alta resiliência, | ||
+ | pequeno distúrbio ele retorna ao seu estado de equilíbrio. Isso ocorre porque | ||
+ | existem forças (ex. Feedback negativo e positivo) que atuam fazendo com que o | ||
+ | sistema retorne ao seu estado original. Até certo tempo atrás se acreditava que | ||
+ | os sistemas, quando perturbados, | ||
+ | controlável (Folke et al., 2002), porém, alguns trabalhos (Blindow et al., 1993; | ||
+ | Persson et al., 2007) têm demonstrado que na natureza existem também | ||
+ | mudanças bruscas de estado. Essas mudanças abruptas ocorrem quando a | ||
+ | condição ambiental muda o suficiente para ultrapassar o limiar crítico da | ||
+ | condição, o “ponto de bifurcação”, | ||
+ | estado estável para outro estado estável. Uma vez que o sistema entra neste | ||
+ | novo estado de equilíbrio, | ||
+ | mude o suficiente para encontrar outro ponto de bifurcação e ocorra uma | ||
+ | mudança abrupta para um estado de equilíbrio diferente (Scheffer 2009). | ||
+ | |||
+ | Pequenas mudanças nas condições ambientais nem sempre são refletidas em | ||
+ | mudanças perceptíveis no sistema, porém podem diminuir a resiliência da | ||
+ | mesma (Scheffer 2009). Sistemas com baixa resiliência são mais sensíveis às | ||
+ | mudanças das condições ambientais, fazendo com que pequenas perturbações | ||
+ | levem o sistema a outro estado de equilíbrio (Scheffer et al., 2001). Visto que as | ||
+ | comunidades ecológicas estão constantemente sujeitas a perturbações como | ||
+ | atividades antrópicas e fenômenos climáticos, | ||
+ | perturbações sobre as comunidades e quais os pontos de bifurcação são | ||
+ | fundamentais para tentar prever uma mudança de estado, assim como manejar | ||
+ | sistemas que se encontram em um estado de equilíbrio “não desejável” (ex: áreas | ||
+ | degradadas). | ||
+ | |||
+ | Estados alternativos foram observados em diferentes sistemas biológicos como | ||
+ | recifes de coral (Knowlton 1992), desertos (deMenocal et al., 2000) e florestas | ||
+ | (Hirota et al., 2011). As Florestas Tropicais e as áreas degradadas podem ser | ||
+ | consideradas estados alternativos de equilíbrio estável de um mesmo sistema. | ||
+ | As áreas degradadas com predominância de gramíneas impede que novos | ||
+ | indivíduos consigam se estabelecer devido à alta radiação solar e temperatura, | ||
+ | competição com as gramíneas por recursos. Por outro lado, as florestas | ||
+ | conseguem manter a umidade local, diminuem a incidência de radiação solar e | ||
+ | temperatura no interior das mesmas, permitindo que novos indivíduos cheguem e | ||
+ | se estabeleçam, | ||
+ | indicam que a facilitação pode ser um dos mecanismos de feedback positivo | ||
+ | responsável por mudar o sistema de um estado degradado para um de floresta | ||
+ | (Bruno et al., 2003; Holmgren & Scheffer, 2001). | ||
+ | |||
+ | A facilitação pode ser definida como uma interação positiva entre espécies, na | ||
+ | qual a presença de uma espécie afeta direta ou indiretamente o crescimento e | ||
+ | sobrevivência da outra espécie (Callaway 1997). Nesse contexto, a presença de | ||
+ | um indivíduo adulto em uma área degradada pode amenizar as condições | ||
+ | ambientais extremas encontradas nestes locais, e facilitar o estabelecimento de | ||
+ | outros indivíduos, | ||
+ | |||
+ | O meu projeto de mestrado está inserido em um projeto maior que busca | ||
+ | entender o balanço de interações positivas (facilitação) e negativas (competição) | ||
+ | entre espécies vegetais de diferentes grupos ecológicos, | ||
+ | espaciais diferentes (isoladas e agregadas), em áreas degradadas. Esse | ||
+ | projeto, assim como outros projetos de restauração, | ||
+ | de quão resiliente são as áreas degradas, e qual é o ponto de bifurcação em que | ||
+ | o sistema passa de um estado de área degrada para um de floresta, em que os | ||
+ | processos ecológicos são restabelecidos. Isso faz com que o sistema volte a ser | ||
+ | autossustentável e não precise mais de forças externas (ex: manejo) para seguir | ||
+ | a sucessão. | ||
+ | |||
+ | Além disso, busco entender quais atributos funcionais de resposta das plantas | ||
+ | estão relacionados ao estado de área degradada, particularmente os estágios | ||
+ | iniciais de sucessão. Atributos funcionais de resposta são características mofo- | ||
+ | fisio-fenológica que variam em resposta a variações ambientais, e podem dar um | ||
+ | indicativo de como as espécies se comportam frente às condições ambientais a | ||
+ | que estão expostas (Violle et al., 2007). Visto que um dos principais gargalos de | ||
+ | projetos de restauração é o alto custo do plantio e manutenção, | ||
+ | informações de quais espécies possuem características que as possibilitam | ||
+ | ocupar determinado ambiente, diminui os prejuízos causados pela mortalidade | ||
+ | das plantas e aumenta a chance do sistema seguir a dinâmica sucessional. Além | ||
+ | disso, é possível que ao identificar quais atributos funcionais estão relacionados | ||
+ | com os estágios iniciais de sucessão, facilite o alcance do ponto de bifurcação | ||
+ | para que o sistema mude de estado de equilíbrio estável. | ||
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+ | == Referências bibliográficas== | ||
+ | |||
+ | Blindow I. et al. 1993. Long-term pattern of alternative stable states in two shallow | ||
+ | eutrophic lakes. Freshwater Biology 30: 159-167 | ||
+ | |||
+ | Bruno, J.F., Stachowicz, J.J. & Bertness, M.D. (2003). Inclusion of facilitation into | ||
+ | ecological theory. Trends Ecol. Evol., 18, 119–125. | ||
+ | |||
+ | Callaway, R.M. (1997). Positive interaction in plant communities and the | ||
+ | individualistic continuum concept. Oecologia 112: 143-149. | ||
+ | |||
+ | DeMenocal, P.; Ortiz, J.; Guilderson, T.; Adkins, J.; Sarnthein, M.; L. Baker & M. | ||
+ | Yarusinsky. 2000. Abrupt onset and termination of the African Humid Period: rapid | ||
+ | climate responses to gradual insolation forcing. Quaternary Science Reviews, | ||
+ | 19:347-361. | ||
+ | |||
+ | Folke, C.; Carpenter, S.; Elmqvist, T.; Gunderson, L.; C.S. Holling & B. Walker. | ||
+ | 2002. Resilience and Sustainable Development: | ||
+ | World of Transformations. Ambio, 31:437-440. | ||
+ | |||
+ | Hirota et al. 2011. Global resilience of tropical forest and savanna to critical | ||
+ | transitions. Science 334: 232-235. | ||
+ | |||
+ | Holling C.S. 1973. Resilience and stability of ecological systems. Annu. Rev. Ecol. | ||
+ | Syst. 4: 1-23. | ||
+ | |||
+ | Holmgren, M. & Scheffer, M. 2001. El Niño as a window of opportunity for the | ||
+ | restoration of degraded arid ecosystems. Ecosystems 4 (2), 151-159 | ||
+ | |||
+ | Knowlton N. 1992. Thresholds and multiple stable states in coral reef community | ||
+ | dynamics. Am Zool 32:674-82. | ||
+ | |||
+ | Persson et al. 2007. Culling prey promotes predator recovery - alternative states in | ||
+ | a whole-lake experiment. Science 316: 1743-1746. | ||
+ | |||
+ | Scheffer, M. et al. 2001. Catastrophic shifts in ecosystems. Nature 413: 591-596. | ||
+ | |||
+ | Scheffer, M. 2009. Alternative Stable States. In: Critical Transitions in Nature and | ||
+ | Society, Chapter II, pp. 11-36, Princenton University Press. | ||
+ | |||
+ | Schröder, A.; Persson, L.; De Roos, A. M. (2005). “Direct experimental evidence | ||
+ | for alternative stable states: a review”. Oikos 110 (1): 3–19. | ||
+ | |||
+ | Violle, C., Navas, M.L., Vile, D., Kazakou, E., Fortunel, C., Hummel, I., Garnier, E. | ||
+ | 2007. Let the concept of trait be functional!. Oikos, v. 116, p. 882–892. | ||
+ | |||
+ | |||
+ | ==== Teoria de Biogeografia de Ilhas e sua influência na Ecologia de Paisagem ==== | ||
+ | === Camila Celestino Hohlenwerger === | ||
+ | Compreender como padrões de diversidade são gerados é uma das grandes perguntas gerais da Ecologia (Sutherland et al., 2013). Na década de 60, enquanto a maioria dos padrões de diversidade eram explicados por teoria de nicho, ou por processos de competição ou predação (Klopfer & MacArthur, 1961), a Teoria de Biogeografia de Ilhas proposta por Robert MacArthur e Edward Wilson (1967) surge trazendo consigo uma nova abordagem na qual a interação entre as espécies tem papel menos fundamental na explicação de padrões de diversidade em ambientes insulares (Gotelli, 2009). A Teoria de Biogeografia de Ilhas prevê que o número de espécies em uma ilha está positivamente relacionado ao tamanho da ilha, e que a distância da ilha até a área fonte de espécies mais próxima está inversamente relacionada ao número de espécies (MacArthur & Wilson 1967). Ao alcançar a saturação de espécies da ilha, é instalado um estado de equilíbrio dinâmico, no qual o número de espécies é mantido apesar de a composição de espécies não se manter a mesma. Esse estado de equilíbrio é alcançado através de um balanço entre as taxas de imigração e extinção (Gotelli, 2009). | ||
+ | |||
+ | A Teoria de Biogeografia de Ilhas é considerada um marco na Ecologia (Begon et al., 2006; Losos & Ricklefs 2010). Além de ressaltar a importância e o potencial que o estudo de ilhas tem para compreensão de padrões biológicos (Losos & Ricklefs 2010), a Teoria se sobressai por apresentar de modo simples como, através de um balanço entre imigração (na qual a distância até a área fonte é o principal fator de influência) e extinção (na qual a área da ilha é o principal fator de influência) é possível se alcançar um equilíbrio dinâmico sem levar em consideração interação entre as espécies (Gotelli, 2009). Nesse contexto, uma das suposições desse modelo de equilíbrio é de que a presença de uma espécie não altera a chance de colonização ou de extinção de outra espécie (Gotelli, 2009). | ||
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+ | A relação espécie-área é considerada uma das poucas leis em Ecologia (Gotelli, 2009), e apesar de ter sido proposta como um modelo que explica o padrão de diversidade de ambientes insulares, seu modelo foi extrapolado no estudo de outros ambientes isolados (MacArthur & Wilson 1967, Gotelli 2009; Losos & Ricklefs 2010). Posteriormente, | ||
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+ | No entanto, posteriormente, | ||
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+ | Apesar da negação do pressuposto de que o isolamento de fragmentos florestais seria análogo ao isolamento de ilhas, a Teoria de Biogeografia de Ilhas foi e é fundamental na construção de conhecimentos em Ecologia de Paisagem. | ||
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+ | Tenho interesse em compreender como a perda de habitat na escala da paisagem influencia na diversidade, | ||
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+ | == Referências bibliográficas == | ||
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+ | Begon, M.; Townsend, C.R. & Harper, J.L. 2006. Ecologia: de indivíduos a ecossistemas. 4. ed. – Porto Alegre: Artmed, 2007. | ||
+ | |||
+ | Doak, D. F., P. C. Marino, P. M. Kareiva. 1992. Spatial scale mediates the influence of habitat fragmentation on dispersal success: implications for conservation. Theoretical Population Biology 41: | ||
+ | |||
+ | Ewers, R. M. & Didham, R. K. 2006. Confounding factors in the detection of species response to habitat fragmentation. Biological Reviews 81(1): 117-142. | ||
+ | |||
+ | Fahrig, L. 1998. When does fragmentation of breeding habitat affect population survival? Ecological Modelling 105 (2-3): 273-292. | ||
+ | |||
+ | Fahrig, L. (2003). “Effects of habitat fragmentation on biodiversity”. Annual Review of Ecology Evolution and Systematics 34: 487-515. | ||
+ | |||
+ | | ||
+ | |||
+ | Gotelli, N. J. 2009. Ecologia. 4 edição. Editora Planta. | ||
+ | |||
+ | Higgs, A. J., Usher, M. B. 1980. Should nature reserves be large or small? Nature. 285: 568-569. | ||
+ | |||
+ | Klopfer, P. H., MacArthur, R. H. 1961. On the causes of species diversity: Niche overlap. The American Naturalist. 95. | ||
+ | |||
+ | Losos, J. e Ricklefs, R. (Eds.). 2010. The Theory of Island Biogeography Revisited. Princenton University Press. | ||
+ | |||
+ | MacArthur, R. H., Wilson, E. O. 1967. The theory of island Biogeography. The Princeton University. | ||
+ | |||
+ | MacArthur, R. H. 1958. Population ecology of some warblers of northeastern coniferous forests. Ecology, 39(4): 599-619. | ||
+ | |||
+ | Metzger, J.P. 2001. “O que é ecologia de paisagens? | ||
+ | |||
+ | Millennium Ecosystem Assessment. 2005. Ecosystems and Human Well-being: Biodiversity Synthesis (World Resources Institute, 2005). | ||
+ | |||
+ | Murphy, H. T. & Lovett-Doust. 2004. Context and connectivity in plant metapopulations and landscape mosaics: does the matrix matter? Oikos 105(1): 3-14. | ||
+ | |||
+ | Prevedello, J. A. & Vieira, M. V. 2010. Does the type of matrix matter? A quantitative review of the evidence. Biodiversity and Conservation 19(5): 1205-1223. | ||
+ | |||
+ | Ricketts, T. H. 2001. The Matrix Matters: Effective Isolation in Fragmented Landscapes. The American Naturalist 158(1): 87-99. | ||
+ | |||
+ | Simberloff, D., J. A. Farr, J. Cox, D. W. Mehlman. 1992. Movement corridors: conservation bargains or poor investments? | ||
+ | Sutherland, W. J., Freckleton, R., Godfray, H. C. J., Beissinger, S. R., Benton, T., Cameron, D. D., Carmel, Y., Coomes, D. A., Coulson, T., Emmerson, M. C., Hails, R. S., Hays, G. C., Hodgson, D. J., Hutchings, M. J., Johnson, D., Jones, J. P.G., Keeling, M. P., Kokko, H., Kunin, W. E., Lambin, X. E., Lewis, O.T., Malhi, Y., Mieszkowska, | ||
+ | |||
+ | Vandermeer, J., Carvajal, R. 2001. “Metapopulation dynamics and the quality of the matrix.” American Naturalist 158(3): 211-220. | ||
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+ | ==== Nicho ecológico e os efeitos da perda de hábitat ==== | ||
+ | === Júlia Ferrúa dos Santos === | ||
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+ | Ao longo da história o termo nicho recebeu diversas definições, | ||
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+ | A palavra nicho foi utilizada pela primeira vez por Roswell Johnson em seu trabalho publicado em 1910. Nele, Johnson se referia a nicho como um recurso espacial utilizado pelas espécies (Johnson, 1910). Entretanto, foi Joseph Grinnell que pela primeira vez incluiu o termo em um programa de pesquisa, descrevendo o nicho de diversas espécies de aves e mamíferos (Grinnell & Swarth, 1913). Em seus estudos, ele comparou comunidades de diferentes localidades geográficas e percebeu que poderia haver uma equivalência ecológica entre alguns organismos. Além disso, concluiu também que em determinados locais poderia haver nichos vazios Ele listou diversos fatores ambientais que fariam parte do nicho e considerou também as adaptações fisiológicas e comportamentais geradas como respostas a estes fatores. Para Grinnell, o nicho representava as condições e recursos necessários para a existência de uma espécie, estando intimamente ligado à ideia de exclusão competitiva. | ||
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+ | Enquanto Grinnell enfatizava os aspectos ambientais em sua definição, | ||
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+ | Em 1957, George E. Hutchinson formaliza a definição de nicho como um atributo da espécie e não do ambiente, matematizando a mesma como um espaço n-dimensional, | ||
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+ | Na década de 60, Robert MacArthur e Richard Levis propuseram uma extensão da abordagem de Hutchinson através do conceito de distribuição da utilização do recurso, onde um nicho é definido para uma população específica, | ||
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+ | No meu projeto, eu busco compreender o efeito da perda de hábitat no nicho de pequenos mamíferos. Para responder minha pergunta, utilizo aspectos relacionados à ecologia trófica dos animais. Muitos estudos abordam os efeitos da perda de hábitat (e.g. perda de biodiversidade, | ||
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+ | A perda de hábitat e a fragmentação de ecossistemas florestais são consideradas umas das principais causas de extinção de espécies. Uma vez que a área disponível de habitat é reduzida, há um aumento de distúrbios como efeitos de borda e perda de conectividade, | ||
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+ | A disponibilidade de recursos é um dos fatores afetados pela perda de hábitat (Tabarelli et al. 1999; Crist et al. 2006), e esta pode ser uma das causas pelas quais espécies de vertebrados se tornam sensíveis a mudanças no habitat. Ao mesmo tempo, alterações na disponibilidade de recursos pode desencadear uma variação na dieta de espécies de vertebrados (Nour et al. 1998; Abba et al. 2011), e consequentemente afetar funções ecossistêmicas como polinização, | ||
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+ | == Referências Bibliográficas == | ||
+ | |||
+ | Abba, F.; Morellet, N.; Hewison, A. J. M.; Merlet, J.; Cargnelutti, | ||
+ | |||
+ | Allesina, S. & Bodini, A. 2004. Who dominates whom in the ecosystem? Energy flow bottlenecks and cascading extinctions. Journal of Theoretical Biology, 230: | ||
+ | |||
+ | Cagnolo, L; Valladares, G.; Salvo, A.; Cabido, M.; Zak, M. 2009. Habitat fragmentation and species loss across three interacting trophic levels: Effects of life-history and food-web traits. Conservation Biology, 23(5): | ||
+ | |||
+ | Crist, T. O.; Pradhan-Devare, | ||
+ | |||
+ | Elton, C. S. 1927. Animal Ecology. New York: The Macmillan Company, 207pp. | ||
+ | |||
+ | Fahrig, L. 2003. Effects of hábitat fragmentation on biodiversity. Annual Review of Ecology, Evolution and Systematics, | ||
+ | |||
+ | Fleury, M. & Galetti, M. 2006. Forest fragment size and microhabitat effects on palm seed predation. Biological Conservation, | ||
+ | |||
+ | Grinnell, J. & Swarth, H. S. 1913. An account of the birds and mammals of the San Jacintoarea of southern California with remarks upon the behavior of geographic races on the margins of their habitats. University of California Publications in Zoology, 10(10): | ||
+ | |||
+ | Johnson, R. H. 1910. Determinate evolution in the color-pattern of the lady-beetles. Washington: Carnegie Instiution of Washington, 103pp. | ||
+ | |||
+ | Leibold, M. A. 1995. The niche concept revisited: mechanistic models and community context. Ecology, 76(5): | ||
+ | |||
+ | Nour, N.; Currie, D.; Matthysen, E.; Van Damme, R.; Dhondt. 1998. Effects of habitat fragmentation on provisioning rates, diet and breeding success in two species of tit (great tit and blue tit). Oecologia, 114: | ||
+ | |||
+ | Pineda, E.; Moreno, C.; Escobar, F. & Halffter, G. 2005. Frog, bat, and dung beetle diversity in the Cloud Forest and coffee agroecosystems of Veracruz, Mexico. Conservation Biology, 19(2): | ||
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+ | Schoener, T. W. Ecological niche. Cap. I.1. In. Levin, A. A. 2009. The Princeton Guide to Ecology, p.842. | ||
+ | |||
+ | Tabarelli, M.; Mantovani, W.; Peres, C. A. 1999. Effects of habitat fragmentation on plant guild structure in the montane Atlantic forest of southeastern Brazil. Biological Conservation, | ||
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+ | ==== Resiliência Ecológica e Sócio-ecológica ==== | ||
+ | === Paula Elias Moraes === | ||
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+ | No final da década de 60, Lewontin (1969) propôs a existência de estados estáveis alternativos em comunidades e ecossistemas, | ||
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+ | Sabe-se que a estabilidade nos sistemas dinâmicos corresponde à persistência do sistema próximo do seu estado de equilíbrio e pode ser medida pela resiliência (Gunderson 2000; Levin 2009). A resiliência de um sistema pode ser definida de duas formas, refletindo diferentes aspectos da estabilidade (Gunderson 2000). Pela definição mais tradicional, | ||
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+ | {{: | ||
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+ | A existência de estados alternativos tem profundas implicações na forma como o sistema se comporta frente às mudanças ambientais. Os sistemas ecológicos podem responder de forma gradual às mudanças ambientais (Figura 2A), ser tolerantes ao longo do gradiente ambiental e responder fortemente nos níveis críticos (Figura 2B) ou, em situações extremas, podem mudar bruscamente para outro estado de equilíbrio, | ||
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+ | Estudos apontam que a diversidade biológica parece aumentar a resiliência de um ecossistema, | ||
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+ | Grande parte dos produtos que utilizamos no dia-a-dia para nosso conforto e sobrevivência vem dos serviços ecossistêmicos (e.g. clima ameno, água, ar, alimento e combustível) presentes nos sistemas ecológicos. No entanto, a provisão de serviços ecossistêmicos pode ser comprometida pelas mudanças ambientais causadas pelo homem (Elmqvist et al. 2003). Estudos em recifes de corais, lagos, oceanos, florestas e regiões áridas evidenciam que as atividades antrópicas alteram a resiliência desses ecossistemas, | ||
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+ | Com a crescente transformação dos ecossistemas pelo homem tem se dado maior importância para estudos que abordam os sistemas social e ecológico de forma integrada (Folke et al. 2002). Além da “ecological resilience” e “engineering resilience” citadas nos parágrafos anteriores, há também a “social-ecological resilience” que inclui o conhecimento dos moradores locais para um melhor entendimento do ecossistema (Berkes et al. 2000; Olsson e Folke 2001). Esse conceito pode ser interpretado como: (i) a quantidade de distúrbio que um sistema pode absorver e continuar no mesmo estado; (ii) o grau que o sistema é capaz de se reorganizar; | ||
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+ | O objetivo do meu projeto de mestrado é avaliar o efeito sinergético da perda do habitat e da caça sobre a persistência de espécies de mamíferos de maior porte em região de fronteira agrícola da Amazônia Oriental, a partir de entrevistas com os moradores locais. Os diferentes tipos de distúrbios antrópicos (e.g. caça, extração de produto florestal madeireiro, agricultura de corte e queima, perda e fragmentação de habitat) comumente ocorrem simultaneamente em paisagens de florestas tropicais, de forma que seus efeitos podem ser sinergéticos (Laurence e Peres 2006; Peres et al. 2010). Além disso, segundo Holling (1973), resiliência é a propriedade do sistema e a persistência ou probabilidade de extinção é o resultado da diminuição da resiliência. Pode-se pensar que as ameaças que resultam em perda de espécies tornam as populações pouco resilientes e a diminuição linear nas abundâncias das espécies dá lugar ao colapso repentino e imprevisível. Assim, a interação entre perda de habitat e caça deve ocorrer porque em fragmentos florestais menores os mamíferos apresentam populações pequenas, vulneráveis e mais acessíveis aos caçadores em relação às florestas contínuas (Chiarello 1999; Laurance et al. 2000). | ||
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+ | A perda de populações de mamíferos pode ter implicações para a dinâmica de florestas tropicais, uma vez que esses animais exercem funções ecológicas chaves. Muitos são polinizadores e dispersores de sementes (Asquith et al. 1997; Stoner et al. 2007) e alguns são predadores de topo, podendo desencadear cascatas tróficas (Hairston et al. 1960; Roemer et al. 2009; Terborgh e Estes 2010). Além de sua importância ecológica, os mamíferos são também importantes para o homem por serem fonte importante de alimento para populações próximas as florestas tropicais (Dwyer e Minnegal 1991; Redford 1992; Wilkie e Carpenter 1999). Com isso, o conceito de resiliência tem se tornado fundamental em ações de manejo de recursos naturais (Folke et al. 2002). De forma que, um manejo efetivo requer um bom entendimento sobre a dinâmica do ecossistema e o bem-estar da população humana, a partir da exploração sustentável das espécies. | ||
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+ | == Referências Bibliográficas == | ||
+ | |||
+ | Asquith NM, Wright SJ, Clauss MJ (1997) Does mammal community composition control recruitment in Neotropical Forests? Evidences from Panama. Ecology 78(3): 941-946. | ||
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+ | Berkes F, Folke C (2000) Linking Social and Ecological Systems: Management Practices and Social Mechanisms for Building Resilience. Cambridge University Press. | ||
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+ | Clarke GL (1954) Elementes of Ecology. Harvard University and Woods Hole Oceanographic Institution. | ||
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+ | Chiarello AG (1999) Effects of fragmentation of the Atlantic forest on mammal communities in south-eastern Brazil. Biological Conservation 89: 71-82. | ||
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+ | Dublin HT, Sinclair ARE & McGlade J (1990) Elephants and fire as causes of multiple stable states in the Serengeti–Mara woodlands. J. Anim. Ecol. 59: 1147-1164. | ||
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+ | Elmqvist T, Folke C, Nyström M, Peterson G, Bengtsson J, Walker B, Norberg J (2003) Response diversity, ecosystem change, and resilience. The Ecological Society of America: 488-494. | ||
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+ | Folke C, Carpenter S, Elmqvist T, Gunderson L, Holling CS, Walker B (2002) Resilience and Sustainable Development: | ||
+ | |||
+ | Folke C, Carpenter S, Walker B, Scheffer M, Elmqvist T, Gunderson L, Holling CS (2004) Regime shifts, resilience, and biodiversity in ecosystem management. Annu. Rev. Ecol. Evol. Syst. 35: 557–81. | ||
+ | |||
+ | Folke C (2006) Resilience: The emergence of a perspective for social–ecological systems analyses. Global Environmental Change 16: 253–267. | ||
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+ | Gunderson LH (2000) Ecological resilience—in theory and application. Annu. Rev. Ecol. Syst. 2000. 31: | ||
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+ | Hairston NG, Smith FE, Slobodkin LB (1960) Community Structure, Population Control, and Competition. The American | ||
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+ | Hirota MH, Van Nes EH, Scheffer M (2011) Global Resilience of Tropical Forest and Savanna to Critical Transitions. Science 334(6053): 232-235. | ||
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+ | Holling CS (1973) Resilience and stability of ecological systems. Annual Review of Ecology and Systematics 4: 1–23. | ||
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+ | Holling CS (1996) Engineering resilience versus ecological resilience. In: Schulze PC (Ed). Engineering within ecological constraints. Washington DC: National Academy Press. | ||
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+ | Laurance WF, Vasconcelos HL, Lovejoy TE (2000) Forest loss and fragmentation in the Amazon: implications for wildlife conservation. Oryx 34(1): 39-45. | ||
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+ | Staver AC, Archibald S, Levin SA (2001) The Global Extent and Determinants of Savanna and Forest as Alternative Biome States. Science 334: 230-232. | ||
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+ | Stoner KE, Vulinec K, Wright SJ, Peres CA (2007) Hunting and plant community dynamics in tropical forests: a synthesis and future directions. Biotropica 39(3): 385-392. | ||
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+ | Tilman D, Wedin D, Knops J (1996) Productivity and sustainability influenced by biodiversity in grasslands ecosystems. Nature 379: 718-720. | ||
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+ | Van Nes EH, Scheffer M (2004) Large Species Shifts Triggered by Small Forces. The American Naturalist 164(2): 255-266. | ||
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+ | Walker BH (1992) Biological diversity and ecological redundancy. Conservation Biology 6: 18–23. | ||
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+ | Walker BH (1995) Conserving Biological Diversity through Ecosystem Resilience. Conservation Biology 9(4): 747-752. | ||
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+ | Walker BH, Kinzig A, Langridge J (1999). Plant Attribute Diversity, Resilience, and Ecosystem Function: The Nature and Significance of Dominant and Minor Species. Ecosystems 2: 95–113. | ||
+ | |||
+ | Wilkie DS, Carpenter JF (1999) Bushmeat hunting in the Congo Basin: an assessment of impacts and options for mitigation. Biodiversity and Conservation 8: 927-955. | ||
+ | |||
+ | ==== Síntese conceitual da ecologia de comunidades e as invasões biológicas ==== | ||
+ | === Fernando Silvério Ribeiro === | ||
+ | A história da ecologia de comunidades não tem um início muito bem definido, mas foi a partir da década de 1960 que a disciplina iniciou um claro desenvolvimento teórico (Vellend, 2010). Ao longo dos anos, inúmeros trabalhos identificaram novos processos importantes na estruturação das comunidades ecológicas, | ||
+ | |||
+ | Paralelamente ao desenvolvimento da ecologia de comunidades, | ||
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+ | Apesar de algumas especificidades, | ||
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+ | Em minha pesquisa, procuro entender os determinantes e os impactos da invasão de cachorros domésticos (Canis familiaris) em remanescentes florestais de paisagens fragmentadas na Mata Atlântica. Com relação aos determinantes, | ||
+ | |||
+ | Por outro lado, distúrbios estão relacionados à “invasibilidade” (invasibility) do ambiente e podem alterar, por exemplo, os tipos e quantidades de recursos disponíveis. Nesse novo ambiente, o regime de seleção estabelecido ao longo da história evolutiva é alterado. Interações entre espécies, como competição e predação, podem, deterministicamente, | ||
+ | |||
+ | Apesar da simplicidade dos exemplos apresentados, | ||
+ | |||
+ | == Referências bibliográficas == | ||
+ | |||
+ | Elton, C.S. 1958. The ecology of invasions by animals and plants. Methuen, London. | ||
+ | |||
+ | Gurevitch, J., Fox, G.A., Wardle, G.M., Inderjit, Taub, D. 2011. Emergent insights from the synthesis of conceptual frameworks for biological invasions. Ecology Letters 14: 407-418 | ||
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+ | Hierro, J.L., Maron, J.L., Callaway, R.M. 2005. A biogeographical approach to plant invasions: the importance of studying exotics in their introduced and native range. Journal of Ecology 93: 5-15 | ||
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+ | Keane, R.M., Crawley, M.J. 2002. Exotic plant invasions and the enemy release hypothesis. Trends in Ecology and Evolution 17: 164–170 | ||
+ | |||
+ | Melbourne, B.A., Cornell, H.V., Davies, K.F., Dugaw, C.J., Elmendorf, S., Freestone, A.L., Hall, R.J., Harrison, S., Hastings, A., Holland, M., Holyoak, M., Lambrinos, J., Moore, K., Yokomizo, H. 2007. Invasion in a heterogeneous world: resistance, coexistence or hostile takeover? Ecology Letters 10: 77–94. | ||
+ | |||
+ | Milbau, A., Stout, J.C., Graae, B.J., Nijs, I. 2009. A hierarchical framework for integrating invasibility experiments incorporating different factors and spatial scales. Biological Invasions 11: 941-950 | ||
+ | |||
+ | Vellend, M. 2010. Conceptual synthesis in community ecology. The Quaterly Review of Biology 85: | ||
+ | |||
+ | |||
+ | ==== A Diversidade em Sistemas Sócio-Ecológicos ==== | ||
+ | |||
+ | === Carlos Frederico Alves de Vasconcelos Neto === | ||
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+ | Sistemas sócio-ecológicos (SSE) são criados a partir da inter-relação entre povos e os recursos naturais que os rodeia, ou seja, a interação entre o sistema social e ecológico. Duas teorias principais servem de base para facilitar a compreensão dos sistemas sócio-ecológicos, | ||
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+ | A ecologia de comunidades tem como um dos principais objetivos explicar as diferenças na diversidade entre comunidades. No entanto, vários estudos não consideram o homem como agente criador/ | ||
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+ | A teoria geral dos sistemas foca-se na hierarquia e interdependência entre os componentes do sistema, enquanto a teoria da complexidade propõe conceitos como não-linearidade, | ||
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+ | |||
+ | Alguns autores (Anderson, 2010; Casas et al., 2007; Campbell et al., 2006) argumentam que o manejo realizado pelos povos que habitaram a Mesoamérica são os responsáveis pela formação de verdadeiras florestas antrópicas - consórcio de espécies domesticadas e de importância econômica com espécies selvagens. Onde observaram que ao longo dos anos de manejo as comunidades de fauna e flora apresentaram diversidade de espécies superior à habitats naturais, devido a maior produtividade destas áreas. Com base neste pressuposto, | ||
+ | |||
+ | |||
+ | Para avaliar a resiliência da área é preciso entender seus mecanismos e dinâmicas internas, para isso é necessário assumirmos como hipótese que estes sistemas sócio-ecológicos se comportam como sistemas complexos. E podem ser caracterizados como sendo resultado de um processo cotidiano de adaptação entre um dado povo e o seu ecossistema, | ||
+ | |||
+ | == Referências Bibliográficas == | ||
+ | |||
+ | Altieri, M.A. 2002. Agroecology: | ||
+ | |||
+ | Anderson, E.N. 2010. Managing Maya Landscapes: Quintana Roo, Mexico. In: Landscape Ethnoecology: | ||
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+ | Berkes, F.; Colding, J.; Folke, C. 2003. Navigating social-ecological systems: building resilience for complexity and chance. Cambridge: Cambridge University Press; | ||
+ | |||
+ | Campbell, D.G.; Ford, A.; Lowell, K.; Walker, J.; Lake, J.K.; Ocampo-Raeder, | ||
+ | |||
+ | Casas, A.; Otero-Arnaiz, | ||
+ | |||
+ | Gomes, J.C.C.; Borba, M. 2003. Limites e possibilidades da agroecologia como base sociedades sustentáveis. Ciencia & Ambiente, 27: 5-14; | ||
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+ | Holling, C.S. 2001. Understanding the complexity of economic, ecological, and social systems. Ecosystems, 4: 390-405; | ||
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+ | Levin, S.A.; Barret, S.; Aniyar, S. 1998. Resilience in natural and socioeconomic systems. Environment and Development Economics, 3(2): 222-235; | ||
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+ | Scoones, I. 1999. New ecology and the social sciences: what prospects for a fruitful engagement? Annual Review of Anthropology, | ||
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+ | Stacey, R. 1996. Complexity and creativity in organizations. San Francisco: Berrett Koehler; | ||
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+ | Walker, B.; Holling, C.S.; Carpenter, S.R.; Kinzig, A. 2004. Resilience, Adaptability and Transformability in Social-Ecological Systems. Ecology and Society 9(2): 1-9; |