As Lagoas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses Maranhão, Brasil


Marcelo L. M. Pompêo & Viviane Moschini-Carlos

USP – IB, Departamento de Ecologia, R. do Matão, Travessa 14, 321, São Paulo, SP, Brasil, 05508-900.


 INTRODUÇÃO

No macrocompartimento Costa-Semi-árida Norte, da Ponta dos Mangues Secos, à ponta de Itapagé (MMA, 1996), particularmente entre a Ilha de São Luís (MA) e o Delta do Parnaíba (PI), pode ser observado o mais importante campo de dunas do litoral brasileiro, e um dos mais significativos do mundo, entremeadas com milhares de lagoas de águas doce, rasa e cristalina, conhecido como Lençóis Maranhenses. Esse nome deve-se a semelhança da região a um lençol visto de cima jogado casualmente sobre uma cama formando ondulações (dunas) e vales (depressões entre dunas).

Através do decreto núm. 86060 (02/06/1981), na região dos Lençóis, foi criado o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, com uma área de 155.000 ha. Está localizado entre os municípios de Primeira Cruz e Barreirinhas (IBAMA, 1989) (Fig. 1). É classificado como de uso indireto dos recursos, exprimindo a não ocupação do espaço para exploração direta (Bruck et al., 1995).


Figura: Localização do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.

A região é de característica única muito importante do ponto de vista paisagístico, cênico, geomorfológico, geológico, da biodiversidade, humano e histórico.

A dinâmica da região é muito intensa sendo o vento o principal agente modificador da paisagem. Na desembocadura do sinuoso rio Preguiças a grande variação da maré e contínua erosão/deposição de areia altera a abertura da barra.

A região apresenta-se muito pobre com uma agricultura de subsistência incipiente As principais culturas próxima a cidade de Barreirinhas são feijão, arroz, mandioca e castanha de caju, complementado com as coletas do fruto e palmito de açaí. A pesca é uma importante fonte de renda.

Segundo MMA (1996), é uma região de risco ambiental moderado.

Toda a área é muito pouco estudada, podendo ser destacado os trabalhos efetuados por Rietzler et al. (1998), Rocha et al. (1998), Tundisi et al. (1998) e Moschini-Carlos & Pompêo (2001).

O turismo vem surgindo como exepcional fonte geradora de riquezas e empregos. No entanto, ainda é muito restrito, sem fiscalização e controle.

 

AS LAGOAS

Marcelo L. M. Pompêo & Viviane Moschini-Carlos
USP – IB, Departamento de Ecologia, R. do Matão, Travessa 14, 321, São Paulo, SP, Brasil, 05508-900, Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. .

   
Segundo Leentvaar (1997), lagoas de dunas são geralmente pequenas e rasas, sendo que muitas desaparecem na época da estiagem. O estudo morfométrico de dez lagoas dos Lençóis Maranhenses localizadas próximas à Lagoa Azul (Pereira e colaboradores, em preparação), confirmou essa afirmação, evidenciando que as lagoas apresentam pequeno comprimento, largura, profundidade máxima, perímetro, volume e área (Tab. 1). Os mapas batimétricos também demonstram grandes variações na forma das lagoas (Fig. 1), padrões estes que podem ser estendidos para toda a área do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.
 

 

Tabela 1: Variáveis morfométricos das lagoas dos Lençóis Maranhenses (Cm.= comprimento máximo; Lm = largura máxima; A = área; V = volume; profundidade máxima; P = perímetro; dp = desvio padrão).  

Lagoa

Cm
(m)

Lm
(m)

A
(m2)

V
(m3)

Pm
(m)

P
(m)

1

121,0

16,0

1083,7

234,2

0,55

250,0

2

270,0

86,0

33309,1

15377,0

0,95

653,0

3

175,0

52,5

1433,5

451,2

0,62

435,0

4

62,0

34,0

1604,9

535,7

0,63

154,0

5

67,5

54,0

2271,1

842,6

0,75

190,0

6

63,0

34,0

1660,6

626,9

0,72

154,0

7

30,6

8,4

167,8

43,3

0,62

69,0

8

34,4

23,2

592,8

147,2

0,55

91,0

9

53,6

20,0

956,3

373,9

0,72

15,3

10

80,0

23,5

1461,7

386,1

0,42

19,0

média

95,6

35,1

4454,1

1901,8

0,62

233,9

dp

74,8

23,2

10155,7

4740,4

0,17

178,6

Nos Lençóis Maranhenses, a partir da precipitação pluviométrica ocorre a recarga do aqüífero e elevação no nível de água do lençol freático. Provavelmente as lagoas localizadas nos pontos mais baixos apresentam um maior aumento no nível da água refletido na profundidade da coluna de água. Sazonalmente, por intermédio da evaporação a evapotranspiração ocorre a diminuição do nível do lençol freático. Desta forma, as lagoas dos Lençóis Maranhenses ao longo de um ciclo anual, relativo ao regime hídrico, podem ser classificadas como: 

 

 

 

temporárias: lagoas que secam a cada ciclo anual, como a maioria das lagoas localizadas na região de Atins;

eventuais: lagoas que secam em períodos excepcionalmente quentes ou após épocas de baixa precipitação pluviométrica;

permanentes: lagoas que nunca secam, como a Lagoa Azul.

 

 

 

Na região da cidade de Araranguá, na foz do rio de mesmo nome localizada no Extremo Sul Catarinense, na localidade denominada de Morro dos Conventos, também são observadas inúmeras lagoas costeiras de pequeno porte formadas pelas águas de chuva. Estas, diferentemente das lagoas dos Lençóis Maranhenses, são constituídas a cada precipitação pluviométrica, sendo que no período de interregno, em sua maioria, secam por completo.

 

 

 

 

Lagoa 1

Lagoa 2

Lagoa 3

Lagoa 1

Lagoa 2

Lagoa 3

Lagoa 4

Lagoa 5

Lagoa 6

Lagoa 4

Lagoa 5

Lagoa 6

Lagoa 7

Lagoa 8

Lagoa 9

Lagoa 7

Lagoa 8

Lagoa 9

  Lagoa 10  
  Lagoa 10  

Fig. 1: Mapas batimétricos de lagoas dos Lençóis Maranhenses. Levantamento realizado em maio de 1998.

Ao longo do ano de 1998, observações efetuadas nos Lençóis Maranhenses constataram que as lagoas com elevadas extensão, área e volume são formadas pela união de duas ou mais lagoas, fenômeno muito comum no final do período chuvoso, mas de curta duração. Na Tab. 2 e Fig. 2 podem ser observados as variações sazonais na batimetria e morfometria da Lagoa Azul. Pode-se verificar que ao longo do ano há grande variação no tamanho e na forma da lagoa, bem como no volume e na profundidade máxima registrada. As variações observadas na morfometria da lagoa estão condicionadas ao regime anual de precipitação. No período de precipitação, que de maneira geral estende-se de janeiro a julho, a lagoa vai sendo formada e no final do período chuvoso a lagoa encontra-se com carga máxima. No período de seca, progressivamente a lagoa seca, atingindo profundidade máxima de 12 cm, a menoir profundidade medida no período. Desta forma, a composição da assembléia e a produtividade primária fitoplanctônica determinadas podem ser explicadas em parte por este padrão sazonal de variação da morfometria da Lagoa Azul (Moschini-Carlos & Pompêo, 2001).

As dunas nos Lençóis Maranhenses são formadas-modificadas pela ação do vento devido a constante retirada e deposição de areia. Ao longo dos anos, as dunas migram progressivamente na direção dos ventos predominantes. Esta continua alteração provavelmente reflete nas características físicas, químicas e biológicas das lagoas, com modificações na composição e dominância de espécies.  

Tabela 2: Variação sazonal nos parâmetros morfométricos da Lagoa Azul.

parâmetros morfométricos

04/03/98

02/09/98

11/11/98

área (m2)

1098,2

26452,2

282,8

volume (m3)

130,3

12272,1

13,8

profundidade máxima (m)

0,32

1,20

0,12

comprimento máximo (m)

74,8

287,0

36,4

largura máxima (m)

20,0

129,0

13,8

perímetro (m)

173

690

63


Numa escala de tempo sazonal, o ciclo anual de precipitação pluviométrica e estiagem, influenciam na forma, profundidade e tempo de duração das lagoas, com reflexo nas suas características físicas, químicas e biológicas. A forma e as características morfométricas dos lagos são importantes atributos explicativos de suas características física, químicas e biológicas (Tundisi & Mussara, 1986). Além do mais, a análise morfométrica de um ecossistema aquático, permite determinar a extensão das zonas litorâneas e limnéticas e eufótica e afótica. Aspectos da limnologia física, como conteúdo em calor, estabilidade da estratificação e déficit hipolimnético de oxigênio também são avaliados pelo estudo morfométrico (Henry, 1990, 1992, 1993, 1995).

Nos Lençóis, as lagoas classificadas como temporárias, provavelmente possuem baixa diversidade de espécies e ocupação inicial por espécies r estrategistas. As espécies fitoplanctônicas devem ser compostas principalmente de organismos com alta taxa de reciclagem, com predomínio de nano e picoplâncton. A elevada transparência da água e períodos diários de estratificação/desestratificação térmica também são importantes características físicas controladoras particularmente da produtividade primária fitoplanctônica (Moschini-Carlos & Pompêo, 2001). As lagoas potencialmente permanentes podem desenvolver uma comunidade mais rica e com maiores níveis de interações intra e interespecíficas e com tendência de predomínio por organismos fitoplanctônicos maiores.

De maneira geral, as lagoas apresentam baixa riqueza de espécies fitoplanctônicas e zooplanctônicas. Em estudo desenvolvido em dez lagoas dos Lençóis Maranhenses (Moschini-Carlos e colaboradores, dados não publicados), verificou-se uma riqueza de 18 a 27 táxons para organismos fitoplanctônicos. No entanto, para algumas espécies as densidades foram muito elevadas atingindo, para Cocconeis placentula, valor da ordem de 480 ind./ml. Da mesma forma que para a assembléia fitoplanctônica, a assembléia zooplanctônica também apresentou baixa riqueza (Pereira, 1999). Análise qualitativa da assembléia de algas perifíticas também sugere baixa riqueza de espécies nas lagoas dos Lençóis Maranhenses.

Na Lagoa Azul foram observadas muitas algas encistadas, particularmente dinoflagelados, alguns gêneros de Chloroccocales e Euglenofíceas. Provavelmente, está é a principal forma de resistência ao período de seca. Outra forma de rápida colonização das lagoas no período de elevada precipitação pluviométrica provavelmente é através do transporte das algas pelo vento e pássaros. Nas margens das lagoas são sempre verificadas as presenças de maçaricos, gaivotas, quero-quero, entre outros. Também é muito comum algas da família zignemafícea em estado de reprodução sexuada. Fatores ambientais extremos, como a elevada temperatura verificada na região, talvez seja a explicação da ocorrência de muitos organismos em estado de reprodução sexuada.

Por ser um ambiente de extremos, a "agressividade" (elevada temperatura; alta intensidade luminosa em toda coluna de água; baixos teores de nutrientes totais e dissolvidos; períodos diários de estratificação e de desestratificação da coluna de água; períodos de cheia e estiagem, com desaparecimento completo da lagoa), associados à variação da morfometria das lagoas, provavelmente são os principais fatores explicativos da composição de espécies, taxa de reciclagem, interação entre as espécies presentes.

 

março/1998

março/1998

 

setembro/1998

setembro/98

 

novembro/1998

novembro/98

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFCIAS

Marcelo L. M. Pompêo & Viviane Moschini-Carlos
USP – IB, Departamento de Ecologia, R. do Matão, Travessa 14, 321, São Paulo, SP, Brasil, 05508-900, Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo. .

Carvalho, A.E.F.B. Estudo florístico e fitossociológico em uma ilha de vegetação no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Monografia de conclusão do curso de Ciências Biológicas. UFMA, 1993. 85 p.
Henry, R. Estrutura espacial e temporal do ambiente físico e químico e análise de alguns processos ecológicos na represa de Jurumirim (Rio Paranapanema, SP) e na sua bacia hidrográfica. Botucatu: UNESP, 1990. 242 p. (Tese de Livre-Docência).
Henry, R. The oxygen deficit in Jurumirim Reservoir (Paranapanema River, São Paulo, Brazil). Japan. J. Limnol., 53(4): 379-384, 1992.
Henry, R. Thermal regime and stability of Jurumirim Reservoir (Paranapanema River, São Paulo, Brazil). Inst. Revue ges. Hydrobiol. 78(4): 501-511, 1993.
Henry, R. The thermal structure of some lakes and reservoirs in Brazil. p. 37-58. In: Tundisi, J.G.; Bicudo, C.E.M.; Matsumura-Tundisi, T. (eds.). Limnology in Brazil, Brazilian Academy of Sciences and Brazilian Limnological Society, 1995.
Leentvaar, P. Communities of dunes lakes. P. 297-322. In: Ecosystems of the world, 2C. Amsterdam: Elsevier, 1997.
Moschini-Carlos, V. & Pompêo, M.L.M. Dinâmica do fitoplâncton de uma lagoa de duna (Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, MA, Brasil). Acta Limnol. Brasil., 13(2): 53-68, 2001.
Pereira, D.; Pompêo, M.L.M.; Moschini-Carlos, V.; Wisniewski, M.J.S. As lagoas de dunas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (MA- Brasil): aspectos físicos, químicos e biológicos. Em preparação.
Rietzler, A.C., Pompêo, M.L.M., Rocha, O., Espíndola, E.L.G., Moschini-Carlos, V., Barbieri, R. A comparative study on the diversity of the flora in tropical and subtropical freshwaters, II: The macrophyte community. An. Acad. Bras. Ci., 70(4): 786-791, 1998.
Rocha, O., Rietzler, A.C., Espíndola, E.L.G., Matsumura-Tundisi, T., Dumont, H.H. Diversity of fauna in sand dune lakes of Lençóis Maranhenses, Brazil, I: The zooplankton community. An. Acad. Bras. Ci., 70(4): 793-795, 1998.
Tundisi, J.G., Matsumura-Tundisi, T., Rocha, O., Espíndola, E.L.G., Rietzler, A.C., Ibañez, M S., Costa Neto, P., Calijuri, M.C., Pompêo, M.L.M. Aquatic biodiversity as a consequence of diversity of habitats and functioning mechanisms. An. Acad. Bras. Ci., 70(4): 767-773, 1998.
Tundisi, J.G. & Mussarra, M.L. Morphometry of four lakes in the rio Doce Valley Lakes system and its relationships with primary production of phytoplankton. Rev. Brasil. Biol., 46(1): 159-171, 1986.

 

 AGRADECIMENTOS

Agradecimentos a Universidade Federal do Maranhão, pelas facilidades oferecidas e ao CNPq (processos ). 

 

FOTOS DA REGIÃO

 A região: rio Preguiças e cidade de Barreirinhas (MA) 

 

rio Preguiças e Barreirinhas rio Preguiças rio Preguiças rio Preguiças rio Preguiças.
Pousada em Barreirinhas Praia e duna na cidade de Barreirinhas Porto na cidade de Barreirinhas. rio Preguiças: visto acima da duna. retirada de areia: Barreirinhas.
Bem-vindo - Welcome rua lateral a igreja matriz Travessia rio Preguiças. rio Preguiças Local para fazer farinha, Barreirinhas.

 

As lagoas 

Fezes nas dunas: Atins. região de Vassouras. Cabana de pescador. região de Vassouras. "Utricularial"
vegetação nas dunas, próximo as lagoas Descida para a Lagoa Azul zona de transição: restinga - dunas dunas lagoas
dunas Dunas Por do sol: região daLagoa Azul Lagos e dunas: região da Lagoa Azul coleta de peixes
medindo lagoas dunas coleta de fito e zooplâncton Lagoas e dunas Lagoa e Dunas

 

FOTOS DE ALGAS

Algas presentes nas lagoas

 

Melosira Hapalosiphon Hapalosiphon Hapalosiphon Stigonema
Stigonema Spirulina Bambusina Actinotaenium Spirogyra
Eunotia Stauroneis Haphotaenium Mougeotia - zigoto Peridinium - cisto
Staurastrum Dictyosphaerium